quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Carta para o vô Nildo

Vô, cê foi embora cedinho demais. Eu ainda nem tinha conseguido abrir os olhos o suficiente pra te (re)conhecer. Porque cê sabe que cedo assim eu demoro um pouco pra conseguir encarar a claridade. Vô, por que será que tanta vida termina antes das dez da manhã? Por que tantas pessoas vão embora antes da gente acordar? Eu não tive tempo de preparar o café da manhã e a mãe sempre diz que não pode sair cedo assim sem tomar café. Faz mal, vô. Faz mal pro coração. Sair antes do café dá saudade no coração da gente. Por que será que o Ministério da Saúde não adverte?

Vô, cê lembra daquela vez que o senhor me levou pra passear de bicicleta e encontrou um amigo na estrada e quando cê olhou pra mim eu tava chorando? Desculpa vô, nem dá bola, viu? Era só bobagem de criança, eu nem lembro, mas a mãe me contou. Eu sempre fui meio dramática, né? Sabe vô, eu não mudei muito, continuo chorona, sentimental e... meio boba. Mas eu sempre fui valente na frente da gurizada. Sabe como é, o sexo masculino predomina na nossa família, então ser uma das poucas meninas lá no meio não foi tão simples assim.

Por falar nos primos, cê sabe que eles amavam muito o senhor, né vô. Eles me falavam muito do senhor, das suas histórias, das suas piadas, da atenção que eles dedicavam às suas palavras na volta do fogão a lenha. Vô, cê não faz ideia do quanto eu queria ter vivido tudo isso que eles me contam. Eu queria tanto lembrar, mas sabe eu ando desconfiada de que a nossa família tem um problema genético de memória. A vó, tadinha, anda esquecida que só. Vou confidenciar uma coisa pro senhor: eu também ando com medo de ir lá porque tenho receio de que ela não me reconheça, vô. É uma vergonha essa minha covardia. Às vezes me pergunto onde ficou aquela guria que pulou do cocho das vacas, deu com a cara no chão e levantou dizendo que não tinha sido nada, sem derramar uma lágrima. Sim vô, eu fiz isso. Cê não tava lá pra ver, engoli o choro na frente do César, do Mim e do Fabiel.

Mas vô, cê sabe qual foi a solução que eu encontrei pra remediar a falta de histórias com o senhor? Criar as nossas narrativas. Eu inventei as vezes que cê veio aqui em casa e brincou comigo, o dia que o senhor fez aquela vassourinha pra mim e a cadeirinha também. Eu imaginei as histórias que eu escutava atentamente durante os nossos passeios de bici. A nossa mateada debaixo do pé de abacate e as pescarias na beira do rio. No entanto vô, a parte que eu lembro com mais nitidez e que não sai da minha memória é aquela que mais dói. Aquela das gotinhas que a vó tinha de pingar na tua garganta e das gotinhas que caiam do lado de fora e do lado de dento de mim no dia em que o senhor foi embora.

Vô, aí do lado de Jesus deve ser o melhor lugar pra se estar, eu sei. Mas o senhor sabe como é essa coisa de saudade que a gente sente. Cê sabe, aqueles buraquinhos que vão fincando no peito. Mas não é pro senhor ficar triste não, viu vô. Eu sei que a gente não perdeu o senhor, mas que cê foi aí pra ganhar o céu, a eternidade e eu só queria pedir mesmo pro senhor interceder pra que um dia eu possa te encontrar aí também. Não esquece de mim porque aqui eu vivo lembrando do senhor. Ah e vô, cê foi tão cedo que não deu tempo de dizer: eu te amo muito (acho que cê já sabia né, porque o senhor sempre foi o mestre das narrativas do olhar).

Com amor,
Taíssi.

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