quarta-feira, 27 de março de 2013

Fraturas expostas na alma

Imagem: Jana Magalhães

Enquanto escrevo, gotas úmidas emanam de um par de olhos que não reconheço. Olho pra mim e vejo algo que não é ordinário, pois transcende a ordem do dia a dia e tudo aquilo que ultrapassa esse limite tem o dedo (ou a mão inteira) de Deus. Extraordinário é o processo que em mim se opera e que sutilmente identifico através de sinais de sensibilidade visível, coisas que só se pode enxergar com esses olhos que às vezes pingam, mesmo que refugiados em dias de sol. Acontece que quando no coração chove, a calha da alma armazena as partículas até transbordar e as pálpebras abertas dão vazão ao estado líquido do sentimento, que muitas vezes é bom.

Hoje transbordei e seria egoísmo ir dormir sem repartir com o mundo aquilo que já excede o pertencimento de mim mesma. Quando um coração é ferido a gente procede de um modo semelhante ao que se aplica a uma fratura ou um osso quebrado: engessamos. Imobilizamos o coração como a um braço ou uma perna para que a fratura não se agrave e aquilo que foi machucado, quebrado ou fraturado possa se reconstituir. O principal problema desse método reside no fato de que, no caso do coração, nunca se tem a convicção plena do momento exato em que a ruptura está, de fato, reconstituída e o processo atingiu um nível de solidez que permite, finalmente, a remoção do gesso.

Hoje, depois de duas breves horas de sono, algo mágico aconteceu. Acordei um pouco mais leve, como se Deus tivesse me livrado do gesso e meu coração, enfim, pudesse bater livremente outra vez. Ainda receoso, ele movimentava-se com cautela, mas senti o ritmo acelerar com a primeira visita do dia. A felicidade foi quem apareceu por primeiro para saudar o velho amigo nessa nova fase, comemorando a vitória e a emancipação de um passado que fraturava os sentimentos.

Hoje toda a felicidade do mundo veio ver de perto como é que se cura um coração quebrado e uma alma cansada de armazenar lágrimas. Deus veio cantar uma canção pra dizer que o amor é isso mesmo, aquilo que permanece depois que a gente tira a camada grossa de gesso e deixa a alma ser sensível outra vez. É sentir que vale a pena ter no peito um coração que bate diferente às vezes. É não querer ir dormir com medo de não sentir isso outra vez.

3 notas de rodapé:

Christine S. disse...

Lindo, lindo, lindo!

Taíssi Alessandra disse...

obrigada, profe!

Priscila Monteiro disse...

Que coisa linda! Me emocionei.

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