sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

No sentido da despedida (Parte I)

Fotografia: arquivo pessoal

Naquela tarde a janela aberta da sala trazia até meus ouvidos vozes estranhas e familiares, vizinhos e seus visitantes aproveitavam o ar fresco da calçada no final da tarde. O moço que cobrava, nesse dia, pedia algo além do dinheiro. Enquanto beijava seu rosto carinhosamente e questionava acerca de sua saúde, ele exigia o progresso de um estado que talvez desconhecesse: "agora a senhora é minha mãe, precisa ficar bem", afirmava ele sem que ela consentisse com a maternidade que lhe era imposta. O amor é imediato, o amor de mãe então, nem se fala.

Os Natais na casa da vó Maria sempre constituíram um momento raro naquela família, um dos poucos em que as diferenças eram deixadas de lado, dando lugar ao verdadeiro sentido do amor e da união fraterna. Ela se foi pouco antes de festejar mais um Natal, que já não era mais como os de outrora fazia algum tempo. Por um instante eu tive medo. O amor é agora e acho que eu não sabia disso, mas o moço que cobrava parecia saber.

Naquela (outra) tarde em meio aos que choravam e aos que me diziam sentir muito, eu silenciosamente disse adeus. Depois pedi (sem saber se me era permitido) a Deus que me ensinasse um pouco mais sobre o amor e me desse forças para nunca mais deixá-lo para depois. Então o estranho conhecido dessa e de outras histórias veio sentar-se ao meu lado e me lembrou o quanto o amor pode ser grande de maneiras tão diferentes. "A gente nunca espera por isso", foi tudo o que meu pai disse sobre o falecimento de sua mãe. Depois recordou o quanto me amava, à sua maneira é claro e naquele momento eu não esperava por isso, embora devesse. Engraçado, às vezes parece que a gente não espera mesmo ser amado.

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