quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ainda...


Fotografia do filme "As coisas impossíveis do amor"

Olha, eu estou te escrevendo só pra dizer que se você tivesse telefonado hoje eu ia dizer tanta, mas tanta coisa. Talvez mesmo conseguisse dizer tudo aquilo que escondo desde o começo, um pouco por timidez, por vergonha, por falta de oportunidade, mas principalmente porque todos me dizem que sou demais precipitado, que coloco em palavras todo o meu processo mental (processo mental: é exatamente assim que eles dizem, e eu acho engraçado) e que isso assusta as pessoas, e que é preciso disfarçar, jogar, esconder, mentir. Eu não queria que fosse assim. Eu queria que tudo fosse muito mais limpo e muito mais claro, mas eles não me deixam, você não me deixa.
(Caio Fernando Abreu)

Apanhou o celular pela terceira vez naquela manhã, no menu principal escolheu a opção mensagens encorajando uma nova tentativa de escrever aquelas palavras que não encontrava. Decidiu não telefonar, pois não sabia se ainda havia intimidade suficiente para tanto, não gostaria de ser inconveniente. Também não queria deixar apenas um recado casual perdido entre tantos outros em alguma rede social. "A gente não deve permitir que as cartas se tornem obsoletas, mesmo que talvez já tenham se tornado".

Não queria usar palavras grandes, mas como demonstrar afeto sem parecer emotiva? Não desejava falar da saudade, mas como explicar aquela lembrança descompromissada? Engraçado, havia escrito tanto sobre ele que parecia não ter sobrado mais nada para dizer. Toda memória fora transformada em história e ele parecia o único que não se reconhecia como protagonista daquele drama. Só restava o sonho da semana passada, ainda fresco na memória, enquanto a frase lhe ecoava no inconsciente: fica, não vai embora. E ela não estava indo a lugar algum que não fosse atrás de sua felicidade.

Largou o celular sobre a mesa, nem sabia se o número ainda era o mesmo. De repente voltou a tomá-lo nas mãos e, dessa vez, decidida digitou: Se seu número ainda for o mesmo, eu ainda estou aqui, eu ainda quero que você seja feliz hoje e esse ainda será o meu desejo amanhã... ainda que eu não esteja mais aqui.

 Enviar.

1 notas de rodapé:

Laura Reis disse...

não há nem mesmo uma resposta para isso.

Postar um comentário

Fique a vontade, a época é toda sua.