quarta-feira, 27 de abril de 2011

Sobre Estações Rodoviárias*


Durante grande parte da minha vida, as estações rodoviárias foram uma constante em meus dias, principalmente nos finais de semana. Eu, particularmente, sempre achei esse um cenário muito curioso e sendo por natureza um ser extremamente observador, aquele lugar era o palco perfeito para as histórias mais bizarras que eu inventava sobre as criaturas que por ali transitavam.

Acompanhava-me o hábito de olhar para os desconhecidos e imaginar toda a vida deles, por que estavam ali, para onde iam, onde trabalhavam, se estudavam, namoravam, quem eram aqueles de quem se despediam ao entrar no ônibus. Eu captava cada expressão no intuito de desvendar a pessoa em questão, invadindo o seu mundo através dos olhares, dos sorrisos, da maneira de ajeitar o cabelo ou de segurar a mala. As histórias que cada um daqueles sujeitos teria para contar eu jamais conheceria, por isso criava as minhas.

Existem aquelas coisas que, inevitavelmente, você vai encontrar em uma estação rodoviária. Há sempre lojinhas de coisas que as pessoas dificilmente vão comprar em uma rodoviária. A comida é, geralmente, cara. Tem sempre um boteco (ou mais de um) e não é preciso muito azar para encontrar um bêbado chato que vai insistir em te embriagar com o seu hálito de cachaça, na tentativa incansável de estabelecer um diálogo. Os vendedores ambulantes, muitas vezes com sotaques oriundos de lugares desconhecidos, são insistentes e acabam vencendo, muitas vezes, pela insistência. E finalmente, os engraxates, que trabalham rápido e ganham pouco. Certa vez, meu pai pagou um rapaz para engraxar as minhas botas e eu achei aquilo muito legal, até descobrir que as coisas não eram tão bonitas quanto me pareceram naquele momento.

Os funcionários, por sua vez, não inspiram muita simpatia na maior parte das vezes. Sem generalizar, apenas pintando um quadro geral, eles não demonstram muita cordialidade e não parecem gostar do que fazem. Em algumas situações fui compreensiva diante da apatia dos atendentes, certamente eu também não me sentiria feliz atrás de um balcão em um domingo, informando horários e vendendo passagens, enquanto lá fora a natureza nos presenteia com uma linda tarde ensolarada.

Eu tinha uma rodoviária preferida, entre todas as que eu frequentava. E o que mais me despertava a atenção é que sempre havia uma criança com a barriga de fora, os pés descalços e aparência suja pedindo um “troquinho”. Não era sempre a mesma, mas aquilo me dava uma vontade grande de correr para casa, juntar todos os meus brinquedos e trazer um pouco mais do que uma moedinha para aquela infância. Ao observar aquelas crianças eu não precisava imaginar como era a sua vida, nem inventar uma história sobre elas. Aquilo era muito mais real do que qualquer conto que a minha imaginação jamais seria capaz de criar.

Se as recorrentes passagens pelas estações rodoviárias me ensinaram algo, foi que há uma diversidade inimaginável de culturas que a gente não enxerga em qualquer lugar. E assim como as crianças da rua pedem muito menos do que precisam para viver, nós também, muitas vezes, nos contentamos em apenas sobreviver. Transformamos nossas vidas em pequenas estações rodoviárias, por onde há apenas trânsito de pessoas, afinal ninguém fixa residência nesse tipo de local. Então a gente vive a vida conformado com o fato de que as coisas vão passar diante dos nossos olhos e vamos nos resignar a assistir, porque enquanto nos conformarmos com uma realidade em que sempre vão existir crianças indigentes pedindo esmola e jovens analfabetos engraxando sapatos, não seremos menos apáticos do que os funcionários vendendo passagens atrás do balcão em um domingo de sol.

*Texto publicado na coluna Ideias à ventura do Jornal O Informativo de Arroio do Meio em 26/03/2011.

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